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Arroz biofortificado com selênio

Texto baseado no artigo Strategies for applying selenium for biofortification of rice in tropical soils and their effect on element accumulation and distribution in grains, publicado no periódico Journal of Cereal Science em novembro de 2020.


O selênio (Se) é reconhecido como elemento essencial para a saúde dos animais e humanos. Sua deficiência pode estar associada a distúrbios como a doença de Keshan, diabetes tipo 2, hipotireoidismo e câncer. Estima-se que no mundo cerca de 3 bilhões de pessoas sofrem de deficiência de Se, especialmente crianças (Saha et al., 2017).

Grande parte dos solos brasileiros apresenta quantidade insuficiente de Se (Tan, 1989) e, por esse motivo, estudos que propõe estratégias de biofortificação agronômica dos alimentos com Se são de grande importância. Em 2016, o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) aprovou uma lei que permite a adição de Se nos fertilizantes (Brasil, 2016).

Nesse sentido, o estudo conduzido por Lessa et al. (2020) verificou os efeitos da aplicação de Se via solo e via foliar em plantas de arroz. A pesquisa foi realizada em condições de campo em duas áreas experimentais localizadas nos municípios de Lambari-MG e Patos de Minas-MG. A aplicação de Se foi conduzida de 3 formas: i) selenato de sódio fornecido via solo durante a semeadura do arroz; ii) aplicação foliar de selenato de sódio durante a fase reprodutiva da planta; e iii) aplicação foliar de selenito de sódio durante a fase reprodutiva. A faixa de concentração variou de 0 à 80 g Se/ha.

Todos os tratamentos aumentaram a concentração de Se nos grãos de arroz polido, mas o método de aplicação foliar foi o mais eficiente. Os grãos das plantas cultivadas em Lambari-MG apresentaram maior conteúdo de Se em comparação aos grãos produzidos em Patos de Minas-MG. O motivo da baixa eficiência da aplicação via solo pode estar relacionado a diversos obstáculos químicos e físicos do solo, como por exemplo sorção e lixiviação. Geralmente, solos tropicais apresentam alta concentração de óxidos de alumínio e de ferro, o que reduz a disponibilidade de Se para as raízes das plantas. A aplicação de Se não alterou a produção de arroz, mas afetou a atividade de algumas enzimas, promovendo o sistema antioxidante da planta.

Considerando o consumo médio de arroz (0.162 kg/pessoa/dia) e a ingestão diária recomendada de Se (70 μg/pessoa/dia), o estudo concluiu que, para o tratamento mais eficiente (aplicação foliar de selenato de sódio em Lambari-MG), a taxa de Se que deve ser fornecida à planta para obter teores de Se no arroz polido que são adequados para consumo humano seria de 11 g/ha. No caso da aplicação via solo, o incremento chega a ser até 3.3 vezes maior.

Através da técnica de microanálise por fluorescência de raios X, os autores mapearam a distribuição espacial de Se no grão de arroz biofortificado, e verificaram que o Se acumula principalmente no endosperma dos grãos (região mais interna). O artigo apresenta imagens interessantes deste mapeamento.

Foi verificado também que, outros nutrientes como Ca, P, K, Zn, Mn, e Fe, se concentram mais na casca dos grãos, a qual é removida durante o processo de beneficiamento para a produção do arroz polido ou branco, destacando a importância do consumo do arroz do tipo integral. O Se, por outro lado, se acumula principalmente no endosperma, que é a principal parte comestível do grão após o processamento industrial.

A biofortificação agronômica do arroz com Se se mostrou uma estratégia promissora para promover o consumo humano deste nutriente.




Referências


Brasil. Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. Instrução normativa n° 46, 22 de novembro, 2016.


Lessa, J.H.D., Raymundo, J.F., Corguinha, A.P.B., Martins, F.A.D., Araujo, A.M., Santiago, F.E.M., de Carvalho, H.W.P., Guilherme, L.R.G., Lopes, G., 2020. Strategies for applying selenium for biofortification of rice in tropical soils and their effect on element accumulation and distribution in grains. Journal of Cereal Science, 96, p. 103125, 2020.

https://doi.org/10.1016/j.jcs.2020.103125


Saha, U., Fayiga, A., Sonon, L. Selenium in the soil-plant environment: a review. International Journal of Applied Agricultural Sciences, 3, pp. 1-18, 2017.

https://doi.org/10.11648/j.ijaas.20170301.11


Tan, J. The Atlas of Endemic Diseases and Their Environments in the People's Republic of China. Science Press, Beijing, 1989.

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