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Antracnose: uma ameaça crescente a produção de soja

Dra. Thaís Regina Boufleur, Laboratório de Fungos Fitopatogênicos, ESALQ-USP.

Biotecnóloga, Doutora em Fitopatologia, Pós-Doutoranda em Fitopatologia.

thaisboufleur@gmail.com


Atender a crescente demanda por alimentos é um dos grandes desafios a serem superados no século XXI (Tilman, 2011), para isso devemos aumentar a capacidade de produzir mais alimentos em uma mesma área de cultivo, utilizando cultivares com maior capacidade produtiva e resistentes às adversidades do clima e do ambiente.


Estamos carecas de saber, mas não custa relembrar, que a cultura da soja (Glycine max) é uma das protagonistas da alimentação humana e animal e atualmente contribui com cerca de 3% da ingestão de calorias (FAOSTAT, 2018), isso sem contar a grande importância econômica dessa cultura! Nós brasileiros somos os maiores produtores e exportadores de soja, seguidos dos Estados Unidos e Argentina, e juntos somamos 80% da produção mundial (USDA, 2021).


A produção em larga escala, muitas vezes sob condições de monocultura, aliada a condições climáticas ideais, práticas culturais e a presença de patógenos favorece o aparecimento de doenças, que impactam na qualidade e quantidade da produção. Dentre as diversas doenças que acometem a cultura da soja está a Antracnose, doença essa que vem ganhando cada vez mais força nos campos de soja brasileiros, principalmente na região centro-oeste do país.


A antracnose da soja é causada por diversas espécies do gênero Colletotrichum, um fungo com estilo de vida hemibiotrófico considerado entre os 10 fungos patógenos de plantas mais destrutivos do mundo (Dean et al., 2012). A disseminação dessa doença para novas áreas ocorre principalmente por meio de sementes infectadas e até recentemente os sintomas apareciam apenas no final do ciclo da soja no campo, por isso é considerada uma doença de final de ciclo (DFC). Esse cenário vem mudando, e nos últimos anos pesquisadores e produtores começaram a relatar sintomas típicos da doença (manchas irregulares marrom-escuras em cotilédones, hastes, folhas, nervuras e vagens) desde a implantação da cultura no campo, ocasionando o tombamento e em casos mais severos, perdas de estande de produção.


Figura 1: Plântula de soja com sintomas típicos de antracnose, causados por Colletotrichum truncatum.


Tais observações levaram a uma revisão de literatura com foco na antracnose da soja, publicada recentemente na Molecular Plant Pathology, resultado da parceria entre pesquisadores brasileiros da Escola Superior de Agricultura “Luiz de Queiroz” e da Universidad de Salamanca, Espanha (Boufleur et al., 2021). Os pesquisadores realizaram a reclassificação de cerca de 500 sequencias do gene ITS (internal transcribed space) associadas a Colletotrichum spp. e soja disponíveis na literatura e verificaram que cerca de 37% dessas sequências estão associadas ao complexo de espécies (conjunto de espécies estreitamente relacionadas) de Colletotrichum errado! O que se sabe a partir desse estudo é que além de Colletotrichum truncatum um outro complexo, chamado de Colletotrichum orchidearum vem ganhando força ao redor do mundo. Até o momento, três espécies de Colletotrichum do complexo C. orchidearum já foram reportadas em campos de soja brasileiros, C. plurivorum (Barbieri et al., 2017), C. sojae (Damm et al., 2019) e C. musicola (Boufleur et al., 2020).


Além da reclassificação, o estudo reuniu informações disponíveis até o momento na literatura, proporcionando uma plataforma para guiar futuros estudos envolvendo a antracnose da soja. Muito ainda precisa ser estudado a respeito dessa doença, que até recentemente não apresentava uma grande ameaça a produção de soja, realidade essa que vem mudando constantemente. Até onde a descoberta de novas espécies de Colletotrichum irá impactar no campo é uma grande questão a ser respondida e muito esforço ainda precisa ser aplicado para entender a complexidade dessa doença. [MOU1] [TRB2] Mas já podemos levantar a hipótese de que a identificação correta das espécies presentes em uma determinada área irá auxiliar na aplicação de medidas de controle eficientes, e poderá explicar resultados contraditórios de testes de moléculas químicas observados em campo e laboratório, além de influenciar o desenvolvimento de cultivares resistentes a doença, até hoje não disponíveis no mercado.


Mais informações sobre a antracnose da soja e questões que precisam ser respondidas podem ser encontradas em Boufleur et al., 2021.


Referências

Barbieri, M. C. G., Ciampi-Guillardi, M., Moraes, S. R. G., Bonaldo, S. M., Rogério, F., Linhares, R. R., et al. (2017). First report of Colletotrichum cliviae causing anthracnose on soybean in Brazil. Plant Dis. 101, 1677–1677. doi:10.1094/PDIS-07-16-0963-PDN.

Boufleur, T. R., Castro, R. R. L., Rogério, F., Ciampi-Guillardi, M., Baroncelli, R., and Massola Júnior, N. S. (2020). First report of Colletotrichum musicola causing soybean anthracnose in Brazil. Plant Dis. 104, 1858. doi:10.1094/PDIS-12-19-2627-PDN.

Boufleur, T. R., Ciampi-Guillardi, M., Tikami, I., Rogério, F., Thon, M. R., Sukno, S. A., et al. (2021). Soybean anthracnose caused by Colletotrichum species: current status and future prospects. Mol. Plant Pathol. doi:10.1111/mpp.13036.

Damm, U., Sato, T., Alizadeh, A., Groenewald, J. Z., and Crous, P. W. (2019). The Colletotrichum dracaenophilum, C. magnum and C. orchidearum species complexes. Stud. Mycol. 92, 1–46. doi:10.1016/j.simyco.2018.04.001.

FAOSTAT (Food and Agriculture Organization of the United Nations) Available at: http://www.fao.org/faostat/en [Accessed August 14, 2018].

Tilman, D., Balzer, C., Hill, J., and Befort, B. L. (2011). Global food demand and the sustainable intensification of agriculture. Proc. Natl. Acad. Sci. 108, 20260–20264. doi:10.1073/pnas.1116437108.

USDA (2020). World Agricultural Production. Washington, DC.


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