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Catástrofe Alimentar à Vista?

Atualizado: Mar 16

Hudson W.P. Carvalho, é Livre-Docente pela USP, Doutor pela UNESP e Universidade de Paris Sud-11. Trabalha como professor na USP desde 2015.

hudson@cena.usp.br


Abundância: Por que a previsão de Thomas Malthus sobre a catástrofe alimentar não se concretizou?


Vivemos numa época de abundância graças à capacidade de produção agrícola e industrial. Apesar das ansiedades que nos cercam, sugiro a leitura do livro “Desejo de Status” do filósofo contemporâneo Alain de Bottom, a classe média dos países em desenvolvimento vive mais confortavelmente do que os monarcas da época Vitoriana. O caminho entre a escassez a e abundância foi pavimentado graças ao avanço da fronteira do conhecimento (ciência), aplicação das descobertas (tecnologia) e livre iniciativa dos indivíduos (empreendedorismo).


Mesmo com todos os avanços, a agricultura mundial se encontra sob forte pressão. No último século o aumento da população mundial foi acompanhado de crescimento no consumo per capta, isso significa que as pessoas estão consumindo mais. Se isso é correto ou sustentável trata-se um outro debate, esse é um fato. A cada ano que passa existe menos combustíveis fósseis no planeta, além disso seu uso desenfreado pode contribuir para acelerar mudanças climáticas e certamente diminui a qualidade do ar em grandes cidades. Nesse contexto, além fornecer os chamados 3Fs (food, feed, and fiber), a agricultura terá que fornecer, cada vez mais, combustíveis e moléculas de base para a indústria de transformação química.


Colapsos do sistema de produção de alimentos já foram previstos no passado. Talvez o caso mais célebre envolva o acadêmico Thomas Malthus em texto intitulado “An essay on the principle of population” de 1798. Seu estudo sugeria que as populações aumentavam em progressão geométrica, enquanto a produção de alimentos crescia em progressão aritmética, o que acabaria em fome generalizada.


A Figura 1 mostra a produtividade de aveia, cevada e trigo no Reino Unido entre 1270 até os dias atuais. Foram necessários quase 500 anos para que o rendimento subisse de cerca de 1 tonelada por hectare para 2 toneladas por hectare. Nota-se que a capacidade produtiva começa a aumentar especialmente a partir de meados do século 17 devido, entre outros fatores, à adoção de fertilizantes. É possível que o espirito empirista que resultou no aumento de produtividade seja o mesmo que desencadeou a criação da Royal Society e do movimento iluminista.


Figura 1. Produtividade de aveia, cevada e trigo no Reino Unido entre 1270 até os dias atuais. Fonte: https://ourworldindata.org/crop-yields


Contudo, Malthus viveu num período em que a produtividade se encontrava estagnada, é possível que isso tenha o levado a suas conclusões catastróficas. Ele não contava que a inventividade humana no século seguinte seria capaz de fixar nitrogênio do ar atmosférico, criar defensivos químicos, máquinas que aumentassem a capacidade de plantar, colher e processar além de manipular geneticamente as plantas. Esses fatores foram responsáveis pelo tremendo ganho de produtividade observado no século 20.


O gráfico mostra que, como na época de Malthus, nos últimos 20 anos a produtividade dessas culturas no Reino Unido não têm crescido. No Brasil, a situação ainda é diferente, ano após ano a produtividade de culturas como soja, milho e trigo têm aumentado. Segundo a FAO (fao.org) em 2019 a média brasileira era de 5,77 ton/ha para milho, 3,18 ton/ha para soja e 2,67 ton/ha para trigo. Porém, os incrementos são cada vez menores e alcançá-los é mais e mais desafiador.


Diante do cenário atual, com todas as perspectivas de aumento de demanda de produtos agrícolas, será que seria temerário fazer previsões com resultados similares aos de Malthus?

Quais serão as inovações que transformarão os modos de produção levando à novas ondas de ganhos exponenciais na produtividade?


Uma das vertentes exploradas em nosso grupo de pesquisa trata da nanotecnologia na agricultura. Em princípio, materiais nano estruturados podem ser empregados na liberação controlada e localizada de nutrientes e agroquímicos, na detecção de patógenos e substâncias ligadas ao estresse, eles também podem estimular o crescimento, metabolismo e o desenvolvimento vegetal. As aplicações e possíveis impactos sobre a produtividade são enormes. Por outro lado, há também preocupações relacionas a possíveis efeitos colaterais sobre o ambiente.


Embora sua aplicação prática ainda esteja distante, espera-se que a nanotecnologia contribua para uma produção de alimentos mais eficiente e sustentável, onde alimentos com maior qualidade nutricional serão produzidos e menos insumos serão consumidos. Ao longo dos próximos meses será publicada uma série de artigos tratando desse assunto fascinante. Se você se interessa pelo tópico, até breve!

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