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A palhada da cana-de-açúcar e o N-fertilizante

Atualizado: Mar 16

Saulo Augusto Quassi de Castro, doutorando do PPG “Solos e Nutrição de Plantas” da ESALQ-USP

saulo.castro@usp.br


A palhada da cana-de-açúcar e a imobilização do N-fertilizante


O sistema de colheita mecanizado sem queima prévia da cana-de-açúcar deposita uma grande quantidade de resíduo vegetal, palhada, (~8 a 30t/ha) sobre o solo. Ao longo do tempo a palhada será decomposta, mineralizada, através da ação dos microrganismos disponibilizando os nutrientes para o solo e para a planta. A taxa de mineralização da palhada varia em função da composição química, principalmente da relação Carbono:Nitrogênio (C:N), e da composição bioquímica, teor de lignina, celulose e hemicelulose, do material vegetal. Devido à alta relação C:N da palhada da cana-de-açúcar, que é de 80-100:1, essa variável governa a taxa de decomposição.


Na cana-de-açúcar a adubação nitrogenada é comumente realizada sobre a palhada, o que levou a dúvidas quanto à demanda de N-fertilizante nesse sistema de produção. A expansão do sistema de colheita mecanizado ocorreu numa época em que havia poucos estudos tratando da dinâmica do N-fertilizante na palhada, nesse contexto, era recomendado aos produtores rurais que aumentassem a dose de N-fertilizante, aumentando de 1,0 para 1,2 kg de N/t de colmo. Após 15 anos da expansão do sistema de colheita mecanizado sem queima prévia da cana-de-açúcar será que essa recomendação ainda é válida? A palhada da cana-de-açúcar também vem sendo removida do campo e levada para a indústria para produção de etanol de segunda geração e cogeração de energia. Com a difusão dessa prática agrícola, os produtores podem retornar à recomendação anterior de adubação nitrogenada?


A fim de responder as questões acima mencionadas, Castro et al. (2021) avaliaram a dinâmica do N-fertilizante no sistema solo-planta-palhada em um canavial de segunda soqueira. A área foi dividida em 3 tratamentos desde a primeira soqueira, sendo esses: 1. toda a palhada da cana-de-açúcar foi removida (0 %), 2. apenas 50 % da palhada foi removida, e 3. 100 % da palhada foi mantida sobre o solo (Figura 1). Aos 92, 169 e 264 dias após a adubação nitrogenada (DAA) foi realizada a avaliação da recuperação do 15N-fertilizante pela cana-de-açúcar (RNP %) e, aos 264 DAA, também avaliou a quantidade de 15N-fertilizante no solo, até a profundidade de 60 cm (RNS %), e na palhada residual (RNPa %).

Figura 1. A. Adubação sendo realizada nas parcelas experimentais nas parcelas com 0 % (esquerda) e 50 % (direita) de palhada depositado sobre o solo; B. Fertilizante (nitrato de amônio na dose de 120 kg de N/ha) aplicado superficialmente no tratamento com 100 % da palhada sobre o solo.


Os resultados obtidos demonstram que a manutenção da palhada da cana-de-açúcar sobre o solo aumenta a RNP % durante o ciclo de desenvolvimento da cultura (Figura 2). A manutenção da palhada proporciona melhores condições hídricas e de temperatura para o desenvolvimento das raízes nas camadas superficiais do solo e na região de transição entre o solo e a palhada, o que justifica a maior RNP % no tratamento com 100 % de palhada logo aos 92 DAA. Quanto à RNPa % no máximo 2,3 % do 15N-fertilizante foi retido nesse compartimento enquanto a RNS % foi, na média, de 53,4 %, não diferindo entre os tratamentos (Figura 3).


Figura 2. Recuperação do N-fertilizante pela planta ao longo do ciclo de desenvolvimento da cana-de-açúcar comparando a RNP % nas diferentes porcentagens de palhada depositada sobre o solo.

Fonte: adaptado de Castro et al. (2021).


Figura 3. Recuperação do 15N-fertilizante no sistema solo-palhada-planta na colheita da segunda soqueira da cana-de-açúcar nas diferentes porcentagens de palhada depositada sobre o solo.

Fonte: adaptado de Castro et al. (2021).


Com esses resultados conclui-se que: 1. em regiões de clima quente e sujeitas a déficit hídrico, a manutenção da palhada é benéfica, aumentando o uso do N-fertilizante logo no início do desenvolvimento da cultura; 2. a imobilização do N-fertilizante pela palhada é baixa e não é influenciada pela quantidade de resíduo vegetal depositada sobre o solo; 3. a maior parte do N-fertilizante aplicado no canavial ficará retido no solo; e 4. não há a necessidade de aumentar a dose de N aplicado ao solo devido a presença da palhada da cana-de-açúcar. A dose de N-fertilizante a ser aplicada vai depender do potencial produtivo do seu canavial e do sistema de produção como um todo.


Para mais informações, segue o link do trabalho acima mencionado: https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0961953420304232?via%3Dihub.

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